Uma análise do auto-preconceito a partir da minha história pessoal.
Existe um pré-conceito interessante quanto ao homossexualismo, que é o de que a pessoa homo ou "se torna" homo, ou "é homo porque não tinha jeito de ser outra coisa", a primeira expressão sendo usada em relação a pessoas que não "levam jeito", segundo a visão da população "normal" hetero, a segunda em relação à queles(as) que, segundo a mesma, fazem parte do estereótipo visual do gay ou da lésbica.Será que é assim mesmo? Pessoalmente, eu acho que não. A maioria das lésbicas que eu conheço já sabia que era lésbica desde criancinha, e ficou no "armário" para não chocar as pessoas, ou melhor, a família, mas eu também conheço pessoas que colocaram o conceito de "armário" para dentro de suas vidas de uma maneira que só algum acontecimento externo as fez tomarem consciência de que viviam num, por assim dizer.Isso aconteceu comigo, por exemplo.Na minha infância e adolescência, porque cresci num ambiente onde, mais do que haver preconceito contra as lésbicas, havia o pré-conceito de que uma mulher só alcançaria o "status" de mulher completa, feminina, e adulta, se conseguisse conquistar um homem, casa e ter filhos, e sendo eu uma criança, e depois, adolescente, fora do padrão de beleza comum (ou assim eu me sentia; é complicado isso), eu morria de medo de ser rotulada de "sapatão" (era assim que chamavam popularmente antes, se bem que para algumas pessoas essa palavra feia ainda continua), muito embora sentisse uma afinidade muito maior com as meninas que com os meninos, em matéria de relacionamento; isso fez com que eu colocasse uma idéia de mim mesma de que eu só seria uma mulher adulta se eu um dia conquistasse um homem; sem isso eu seria, como muita gente me via, uma "encalhada", rsrsr...eu não era, mas se ficasse 1 ou 2 meses sem um “namoradinho”.....feio isso né? (lembrando disso hoje, eu acho interessante que meninas de 15, 16 anos, e pessoas da família, me cobrassem esse tipo de coisa, inclusive porque eu tinha uns 12, 13 anos na época, muito embora eu fosse fisicamente desenvolvida como elas), uma menina abrutalhada, que nunca seria capaz de se afirmar como mulher. Isso, e os problemas de convivência que eu tinha com outras meninas (sempre fui impopular entre as garotas hetero, por diferenças de gosto - menudos e afins nunca me atraíram - ,e por serem invisíveis, para mim, por ingenuidade e desconhecimento, as lésbicas que provavelmente frequentavam as escolas às quais eu atendi - afinal, vinda de uma família hetero onde ninguém se referia a lésbicas a não ser para dizer que eram "mulheres macho" (afinal, a família do meu pai é nordestina e da minha mãe é uma confusão só, cada um nasceu em um lugar e todos machistas e, sem ter contato com nenhuma, não ia saber quem era o que mesmo), fizeram com que eu repelisse qualquer sinal de desejo que pudesse ter por outras mulheres, e as vezes tivesse um sentimento de inferioridade muito grande por não conseguir me relacionar com homens ou ter um relacionamento duradouro. Até aí, tudo bem, alguém pode dizer, "Tá vendo, ela já era estereotipada desde criança, levava jeito, só podia ter terminado como terminou, homem nenhum ia querer mesmo...", só que a história não acaba aí. Depois de lidar com todos os fantasmas que eu tinha dentro de mim, sair da adolescência e me tornar uma mulher normal, como todas as outras (assim, me livrando do meu maior medo, que era ser repelida como "diferente" pelo resto da vida), e de descobrir que conquistar homens não era nenhum bicho de sete cabeças como todo mundo dizia, bem... eu tinha um problema muito grande nas mãos. Descobri que o meu problema com os homens não era que eles não me quisessem, mas sim que eles não eram o que eu queria e precisava, afetivamente falando.Sexualmente, não tinha problemas com eles, mas não conseguia ver graça em relacionamentos afetivos hetero. Ao mesmo tempo, de início eu ainda tinha um bloqueio em relação às mulheres, e atribuía isso a "ser hetero".Nozinho interessante que isso dá na cabeça, não?rsrsr... Não era mais a "encalhada", a "abrutalhada", muito pelo contrário, tinha os homens que eu quisesse, mas não conseguia me envolver afetivamente com eles. Eu via a maneira pela qual as mulheres conduziam os relacionamentos com homens, e não conseguia me sentir à vontade seguindo os padrões de comportamento delas. Para mim era, como ainda é, totalmente anti-natural o conceito de se policiar o próprio comportamento por medo de perder a pessoa amada, e esse, infelizmente, é o padrão de comportamento das mulheres hetero. Intimamente, contra todas as regras do senso comum, eu sabia, que no dia em que eu encontrasse a pessoa que me completaria, seria ela, ninguém mais. E que essa completitude eu não encontraria com homem nenhum. Enfim, aconteceu de aparecer a minha metade, a pessoa que me completa. E ela é mulher. E tamanha foi a nossa completitude, que sobrepujou todos os meus medos, todo o meu próprio preconceito sobre o amor entre duas mulheres, e sobre a imagem que a sociedade teria sobre mim. Existe somente um "tipo" de homossexual: aquele(a) que ama alguém do mesmo gênero. Qualquer outra diferença é fruto, somente, das pressões do meio, que fazem algumas flores se abrirem mais tarde do que outras.
4 comentários:
Devido ao fato de que a internet estava caindo toda hora no meu trabalho e a consequente pressa em postar para não perder o raciocínio do que eu escrevia, notei diversos erros de digitação... rs por isso, vou apagar o post e refazê-lo aqui.
Gostei da sinceridade do texto. Achei extremamente verdadeiro.
Mas, acredito que seja pautado em uma vivência pessoal, o que não necessariamente implica ser uma constante nas situações de muitos que vivem a questão de relacionamentos homo. Não sei, posso estar errada, (ainda não sei falar sobre o assunto com tanta propriedade), mas não consigo enxergar que homossexualidade é uma coisa que nasce com a pessoa e que é apenas apenas maquiada pela sociedade e cultura na qual a mesma está inserida.
Acredito que existam sim, pessoas que fazem as descobertas referentes a homossexualidade sem nunca ter nenhum tipo de tendência, pensamento, ou afim. Isto porque, acredito no Amor. Amor em sentido amplo. Como bem disse senhorita Riz em um texto no nosso blog: "Desde sempre tive a idéia de que independente do que a pessoa é, homem ou mulher, preto ou branco, rico ou pobre não é isso que me importa, o que conta é a pessoa em si pela qual eu me rendi de amores, que me fez e me faz bem."
Isto é... às vezes, a homossexualidade não aflora exatamente e NECESSARIAMENTE por uma tendência que foi suprimida pela religião, costumes, e ou sociedade. Às vezes, sem nunca existir, nem conscientemente, nem inconscientemente nada disso, simplesmente a pessoa se descobre amando outra pessoa. E por uma ironia do destino, esta outra pessoa é do mesmo sexo. Nestes termos, acaba tendo uma relação homossexual.. mas, não pautada em se nascer lésbica... e sim, em acreditar em amor... e descobrir que ele não tem fronteiras, e nem mesmo conceitos.
Abraço
Ah.. quando eu fui postar de novo, tava no email da minha irmã... rs tive que apagar mais uma vez para postar no meu...
bah olha, depois que eu li seu texto eu realmente me situei. Passei por uma situação parecida e aos poucos estou conseguindo me desvenciliar do armario. Sou mto nova e tenho um pouco de medo do impacto que a revlação possa causar a familiares e colegas, mas só o fato de estar me conhecendo e de saber que nunca serei feliz ao lado de um homem já vale por qualquer constrangimento futuro.
parabens pelo belo texto
bjoo
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